quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Calígula

Que estás a beber, Mereia?

Mereia

É para a minha asma, Caius.

Calígula, avança para ele afastando os outros e cheira-lhe a boca

Não, é um contraveneno.

Mereia

Oh!, não, Caius, podes crer. Queres brincar comigo. Sufoco durante a noite e já há bastante tempo que me trato.

Calígula

Queres dizer que tens medo de ser envenenado?

Mereia

A minha asma...

Calígula

Não. Chamemos as coisas pelo seu nome: tens medo que te envenene. Desconfias de mim. Espias-me.

Mereia

Nunca, por todos os deuses!

Calígula

Suspeitas de mim.

Mereia

Caius!

Calígula, rudemente

Responde. (Matemático) Se tomas um contraveneno atribuis-me por consequência a intenção de te envenenar.

Mereia

Sim... quero dizer... não.

Calígula

E a partir do momento em que julgas que tomei a decisão de te envenenar, fazes o possível por te opor a essa vontade.
(Silêncio...)
São dois crimes e uma alternativa donde não podes sair: ou eu não te queria matar e suspeitas de mim injustamente, de mim, o teu Imperador, ou queria, e então tu, insecto, ousaste opor-te aos meus desejos. (Pausa. Calígula contempla o velho com satisfação.) Hem, Mereia, que dizes a esta lógica?

Mereia

É... é rigorosa, Caius. Mas não se aplica ao meu caso.

Calígula

E, terceiro crime, tomas-me por um imbecil. Ouve-me bem. Destes três crimes, só um é honroso para ti, o segundo - porque, prestando-me determinada intenção e opondo-te a ela, manifestas em ti uma revolta. És um agitador, um revolucionário. Isso é bonito. (Tristemente.) Gosto muito de ti, Mereia. Eis a razão por que apenas te condeno pelo segundo crime. Vais morrer virilmente, por te teres revoltado.
(Durante todo esse discurso, Mereia vai se levantando lentamente do seu assento.)
Não me agradeças. É absolutamente natural. Toma. (Estende-lhe um frasco. Amavelmente.) Bebe este veneno.
(Mereia, soluçando, acena com a cabeça negativamente. Impacientando-se.)
Anda, vamos.
(Mereia tenta escapar-se. Mas Calígula, de um salto felino, alcança-o a meio da cena, atira-o para cima de um tamborete e, após breve luta, enfia-lhe o frasco pela boca adentro, abrindo-lhe os dentes cerrados. Depois de algumas convulsões, Mereia morre com a cara cheia de água e de sangue. Calígula levanta-se e enxuga maquinalmente as mãos. A Cesônia, dando-lhe um fragmento do frasco de Mereia.)
Que é isso? Um contraveneno?

Cesônia, calmamente

Não, Calígula. É um remédio contra a asma.

Um comentário:

  1. Daria uma grande peça. Estilo shakespeariano. Ótimo retrato do mais doentio dos imperadores romanos.

    Abraços.

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