Oitocentos quilômetros de estrada num dia só. Quando se vai ao Cabo de São Tomé tudo parece mais agradável e por todo lado ao longo do caminho se vê mato, monte e céu, até que de súbito passam as últimas elevações e se dá de face com todo aquele mar, azul, imenso, deitando até o horizonte. Nele há pontinhos pretos, barcos de pescadores lá longe. Na praia, barcos entrando e saindo d'água e algumas poucas pessoas observam o movimento dos quiosques sobre o quebra-mar. Tomam café pingado e semicerram os olhos por causa do sol que castiga suas vistas e também as costas nuas dos pontinhos pescadores descarregando toneladas de camarão. A vida vai tranquila lá embaixo, apesar do árduo trabalho, todos parecem contentes. Afinal, trata-se de gente simples, de alegrias e de prazeres simples.
Na volta, mais estrada. O vento resolve me agraciar com o cheiro adocicado da vida bucólica. Apenas vejo ao longe o horizonte se misturando ora ao mar, ora ao mato. E o sol vai se pondo de mansinho até que de repente já sumiu por trás das montanhas sem avisar, deixando para trás um céu azul, laranja e rosa, ao qual a lua já diz olá. Pouco depois, ao olhar pra cima, percebo um sem-número de estrelas pontilhando a escuridão celeste. Então o vento me chega ao rosto outra vez, trazendo consigo o pensamento de que nada mais é necessário, não hoje, não agora. Tudo o que preciso é disso, desta sensação de calma, deste frescor revigorante que me lembra por que viver é tão bom.
