quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mangaratiba

A tarde cai tranquila neste lugar tão sereno. Caminho descalço pela areia da praia a passos tortos, desejando ter uma garrafa de qualquer coisa alcoólica em mãos e maldizendo ligeiramente o azar de ainda ser menor. Meus cabelos caem nos olhos, me distraem por um momento e me tiram um pouco de mim. Faz tempo que não caminho assim, sozinho na praia e com as ondas molhando os pés. Estava mesmo precisando pensar, me resolver de uma vez por todas.

No fim da praia há pedras que margeiam o canal. Do outro lado dele, outra praia, uma prainha pequena cheia de conchas aonde ninguém nunca vai. Tiro a camisa e a deixo sob uma pedra, mergulho no canal e o atravesso. A areia aqui é mais macia; aqui o mundo não faz nenhum sentido. Continuo a caminhar, ora de cabeça baixa, ora fitando o horizonte.

Não há absolutamente ninguém ao redor, isso me deixa em paz. Resolvo nadar outra vez, agora no mar. Ao me despir, dou uma última olhada ao redor: ninguém. Sorrio e entro na água morna, sinto-a me envolvendo, sinto seu gosto salgado. É inevitável que Vento no litoral toque na minha cabeça, como se eu estivesse dentro da música, e não ela dentro de mim.

A cada braçada o cansaço aumenta e fico mais contente de não estar em casa, naquela cidade doentia. Meus músculos começam a arder, então boio por um bom tempo pensando na vida. Em momentos assim, em que nada importa e não há mais preocupação, penso num sem-número de coisas. Sobre passado, amigos e quem é ou foi mais do que só uma amizade. Penso também no futuro, mas ele não é claro, então resolvo apenas me concentrar no aqui, agora, na calmaria desses instantes breves e serenos.

Saio da água cansado. O Sol já começa a se inclinar. Me visto e subo na pedra em que as ondas quebram. Basta sentar, olhar o pôr-do-sol e sentir a brisa me trazer pequenas gotas salgadas ao rosto.

Não tenho mais preocupações, tudo está tranquilo. Agora não preciso mais me importar, apenas atiro minhas decepções e mágoas de tudo e de todos ao vento.

E ele vai levando tudo embora...


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Curto diálogo

- O que você está lendo?

- "...por pouco tempo que a náusea dure nas pessoas, haverá centenas de suicídios."

- É, Mário, é triste a vida sem deus.

Será mesmo essa a distração que todo mundo usa pra não ter que suportar totalmente a existência?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Todo carnaval tem seu fim


Eu não pensei que fosse chorar. Está tudo acabando, mas eu não queria perceber: eu queria me enganar até quando pudesse sobre o fim. Hoje não pude mais.

Sonhei com esse dia por todos esses anos e desejei que ele chegasse logo, mas, agora que chegou, olho para trás, para tudo o que ficou em mim depois de tanto tempo nesse lugar, e finalmente percebo que apesar de tudo eu não queria mesmo que acabasse de jeito nenhum, porque em nenhum outro lugar eu vou viver o que vivi aqui dentro. Onde mais isso é possível?

Afinal de contas, estou muito mais triste do que feliz. Acabou. Estranho dizer isso outra vez. "Acabou". Mas acabou o quê? E o fato de ter acabado é bom ou ruim? Até um ano atrás não existia nada melhor do que poder dizer "Acabou" ao final de um ano, agora já não é mais assim, porque eu sei que não vou estar de volta em fevereiro nem vou ver todos os grandes amigos, melhor dizendo, irmãos que cresceram comigo e que têm uma vida em comum com a minha. Vivemos aqui juntos por tanto tempo e agora vamos nos separar. Somos os filhos saindo de casa, somos uma família que segue seu rumo, cada um para um lado seguindo o próprio caminho.

Mas quantas boas lembranças não temos juntos? Quantas vezes rimos até nossas barrigas doerem? Enfim, como conseguimos sobreviver durante tanto tempo nessa rotina maluca? É difícil responder, mas eu sei que se não fosse por termos uma amizade tão fraterna, se não fosse por sermos tão unidos, nunca conseguiríamos.

Tanto a lembrar e tanto a dizer. Quando chega a hora da despedida, não quero acreditar. Quando ouço tocar o sinal pela última vez, não posso impedir meu estômago de se embrulhar nem posso evitar as lágrimas que me vêm ao rosto. No almoço, o último almoço no refeitório, todos ficam de cabeça baixa tentando conter o choro, mas poucos conseguem; quase todos choram baixo e tentam disfarçar fungando ou fingindo que coçam os olhos. O tempo passa e começamos a nos despedir como alunos. Abraços e choros, todos vão sentir saudades, mas a vida segue em frente.

Por fim, é hora de ir. Desço as escadas e a cada andar derramo lágrimas pelas lembranças que me vêm de todos esses anos, a cada degrau lamento o fim de um período tão longo e tão bom. E, na saída, hesito alguns momentos antes de ir. Não quero ir embora nem dar adeus. Agora que acabou quero ficar, mas não posso. Não me dou ao trabalho de secar o rosto. Não tenho coragem de olhar para trás, para o prédio e para a ladeira que tanto me marcaram. Eu apenas sinto uma tristeza suave e carrego em mim as lembranças do grande prazer que foi estudar aqui com ótimos professores e alunos brilhantes, que hoje posso chamar de amigos pra vida inteira.

A todos vocês, senhores, um grande abraço beneditino e um até breve.